Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

27
Fev 06
O último número da revista SÁBADO publica dois artigos em que critica os professores e os respectivos sindicatos. António Barreto retoma o tema na sua crónica dominical no Público. O mote são as aulas de substituição e reflectem um estado de espírito que se instalou no país e cuja responsabilidade tem várias autorias. Dizer mal dos professores adquiriu elevada cotação no espaço mediático.
Os problemas da escola e do ensino são uma parte dos problemas da educação.A redução dos problemas da educação aos problemas escolares é uma pura idiotice para qual têm contribuido o ministério da educação - que só trata de problemas escolares e com eles pretende resolver os problemas da educação- os sindicatos, as escolas de formação e alguns comentadores políticos que são, simultaneamente, professores universitários. Misturam conceitos e contextos organizacionais distintos e, quase sempre, pedem à escola e aos professores o que, ela e eles, não estão preparados para fazer. A sua missão é apenas, e já é muito, o de ensinar. Sei que nem todos assim pensam mas entendo que a escola serve como local de transmissão de conhecimentos. A configuração do acto de ensino em “ciência da educação”com os seus oráculos e investigações e as suas “pedagogias centradas no aluno” são o remate final para a crescente desqualificação da escola e com ela do acto e da missão de ensinar.
Os sindicatos mais representativos dos professores andaram, ano após ano, a defender causas justas porque importantes, designadamente o da estabilização e qualificação do corpo professoral, com causas sindicais sem sentido, como o dos direitos do estatuto docente entre os quais o do horário de trabalho. A promiscuidade entre o dirigismo sindical e partidário ajudou à sua desqualificação. Mas, concorde-se ou discorde-se da sua acção, qualquer governo (ainda para mais socialista e de esquerda) não os pode tratar com sobranceria.
O ministério da educação, o actual e os anteriores(exceptua-se o do governo de Santana Lopes por inverosímel) têm procurado estabilizar a gestão do sector, alternando o bom e o mau.O bom com tudo quanto procura introduzir mecanismos de rendibilização e disciplina de meios e de recursos.O mau sempre que o faz de forma cega e ignorando que a política se faz com as pessoas.Para muitos dos responsáveis políticos os professores não são um aliado estratégico fundamental. São um adversário a combater, muitas vezes a vergar.Muitos dos que passam pela 5 de Outubro não gostam dos professores. Têm deles uma ideia desqualificante. Isso é patente no enfado com que falam e tratam com os professores apesar de, muitos deles, serem professores. Suspeito que nunca gostaram de o ser.
Algum do jornalismo de causas, que está na moda, também não gosta dos professores. Acham que os professores ganham de mais para aquilo que trabalham. Ou que não querem trabalhar. Alguns dos que se insurgem contra os professores têm experiências escolares fracassadas. Pouco aplicados enquanto alunos, notas fracas, passagens à tangente. O que recordam da escola não é famoso. Escasseia-lhes autoridade moral. Os artigos de opinião são simples ajustes de contas com o passado.Misturam a arrogância com a ignorância.O resultado como é de prever não é famoso.
O que se passa com os professores enquanto grupo profissional não é distinto do que se passa com outros corpos profissionais.A passagem de uma escola de elite para uma escola de massas e a entrada na profissão de muitos que são professores, não por opção e vocação mas por contingências do mercado de trabalho, acentuaram os factores de agravamento e de gestão do problema. A crise global da instituição escolar agravou a situação. Não existe um sistema escolar europeu que não passe por uma crise de identidade profunda.
A maneira mais simples, mas demagógica, de abordar o assunto é como a revista Sábado o faz: os professores são uma espécie de preguiçosos qualificados que querem ganhar, sem para tanto trabalharem. Para rebate de consciência apressam-se a dizer que não são a maioria. Contaram-nos?
Algum do jornalismo que se faz sobre a escola revela preconceito. É falta de escola. E de seriedade.
publicado por José Manuel Constantino às 08:03

24
Fev 06
A minha primeira colecção foi de lápis, mesmo antes dos cromos de jogadores de futebol ou dos selos. O meu pai trabalhava num armazém de distribuição de géneros alimentícios e recebia muitas ofertas de lápis como publicidade a vários produtos e empresas.Era o merchandizing daquele tempo. Os lápis tinham as mais diferentes características sobretudo nos tamanhos e nas espessuras. Uns eram cilíndricos, outros prismáticos. As inscrições publicitárias a cores diversas aumentavam-lhe a policromia. Fascinava-me tanta diversidade. Guardava-os numa pequena caixa de cartão e gostava de os manipular.Como eram da colecção não escrevia com eles.
Nesse tempo o lápis era um instrumento de trabalho. Usava-se para escrever, mas sobretudo para as contas. No comércio era comum encontrar quem usasse o lápis pousado na parte posterior da orelha como local de descanso e onde se ia buscar sempre que necessário. Que me recorde não existia ainda a esferográfica e nas escola era com o lápis que se escrevia nos cadernos, com a inseparável borracha para apagar, sempre que necessário, ou com o giz de lápis na pedra de ardósia onde se aprendia a fazer as contas.Existiam também os lápis de côres que serviam para colorir desenhos e gravuras (anos mais tarde foram,em parte, substítuidos pelas canetas de feltro).
O afiar do lápis através do que se conhece como afia ou apara-lápis não era própiamente um utensílio tão disseminado como nos dias de hoje. Lembro-me de o meu pai afiar o lápis com uma pequena navalha desbastando a madeira de onde saíam pequenas lâminas que depois eram cuidadosamente afastadas com um pequeno sopro até a grafite ficar sobre a forma de um bico fino, mas com uma espessura suficiente para se não quebrar quando utilizado. Era um exercício que exigia enorme destreza e uma perícia que tentava imitar, mas com resultados sempre desastrosos.
Na escola admirava os colegas que com o lápis desenhavam com mestria e faziam sombreados nas peças desenhadas à vista, coisa que nunca fui capaz. A afeição pelos lápis manteve-se ao longo dos tempos mesmo quando ganhei o prazer da escrita cujo exercício e volúpia exigia a presença e o contributo de caneta “ de tinta permanente”.Ligação que ainda mantenho, mas que tem, agora, a concorrência do teclado do computador.
Mas o gosto pelo lápis resistiu ao tempo. Num hotel, prefiro que em cima da mesa de cabeceira do quarto esteja um lápis a uma incaracterística esferográfica e na pasta de um congresso aprecio um lápis a um qualquer outro meio de escrita.Guardo-os sempre com carinho e utilizo-os com frequência.
As marcas alemãs fabricam os melhores lápis. A Faber-Castell, a Johann Faber, a Staedtler possuem belos e úteis lápis. Mas em Portugal também se produzem bons lápis da marca Viarca.
Os lápis vermelhos são os mais comercializados, mas os que mais gosto são os amarelos listados a preto em formato poliédrico. Quando bem afiados têm um porte imperial e uma escrita suave, sobretudo o número 2.A colocação na parte de cima de uma pequena borracha torna-os autosuficientes na sua missão mas, a meu ver, retiram-lhe qualidade estética.Prefiro-os sem aquele adereço. É um companheiro inseparável da leitura para sublinhar os livros.
O transporte do lápis coloca algumas limitações. No casaco corre o risco de quebrar o bico ou de ser incómodo para o corpo. A lapiseira é uma alternativa tecnológica mas que lhe rouba a alma. Lápis é lápis. A solução será acondicioná-lo num estojo próprio. Ou então, ter sempre um lápis disponível nos locais de trabalho.
Quem gosta de lápis é orgulhoso e possessivo em relação a ele. Não o abandona e não deixa que outros o levem. Presta-lhe atenção, afia-o e usa-o.

publicado por José Manuel Constantino às 08:38

23
Fev 06
Um pensamento crítico sobre o desporto e as suas práticas é um exercício indispensável sob pena de se acumularem intenções e objectivos que o desporto, supostamente, deveria garantir e que teima em não atingir. A autonomia relativa do sistema desportivo nas suas relações com outras esferas da actividade social num contexto de crescente mundialização das práticas desportivas tornam essa tarefa indispensável a uma actualização da identidade cultural do desporto.
Um pensamento crítico sobre o desporto é também útil como avaliação do capital de experiência que a história do desporto acumulou e que está muito para além da epopeia dos factos, dos nomes, dos acontecimentos ou dos resultados. Estamos perante novos desafios que se não adequam a velhas perplexidades explicativas. A maior visibilidade do desporto-questão incontroversa - levanta uma série de interrogações, porque coloca problemas novos e cria dinâmicas interpretativas, as quais, num número significativo de casos, estão longe de traduzir uma conhecimento com valor probatório sobre a realidade.
O discurso desportivo dominante, e que tem efeitos hegemónicos sobre a compreensão dos fenómenos desportivos, tem necessidade de ser confrontado com uma perspectiva critica das práticas do desporto. Existe um vasto campo de pensamento e de pesquisa, que está por preencher, se realmente pretendemos compreender a função social do desporto e o papel que desempenha nas sociedades modernas. A realização desse trabalho obriga a desafiar o “ património interpretativo “ de que o desporto é fiel depositário e que assenta num conjunto de “mitos” que dizem respeito à saúde,à educação, aos valores, à inclusão social,à violência,à dopagem etc,etc.
Esse exercício, que em parte tem sido feito por académicos e investigadores, é necessário que seja também praticado por que tem responsabilidades na organização das práticas do desporto (dirigentes políticos e desportivos) ,de modo a que se não alimentem análises e conceitos que estão profundamente desactualizados.
O discurso desportivo continua a ser, em grande número de situações, de natureza axiomática e apologético. Evidencia-se por si mesmo e não carece de demonstração. A sua enunciação é a prova das provas. É um discurso intelectualmente preguiçoso e estruturalmente conservador. Constrói sobre si próprio uma visão que se impõe como coisa natural, automática, sem necessidade de recorrer à reflexão ou ao debate. A consequência é que,depois,no discurso político sobre o desporto há matérias que nunca são enunciadas. Outras são puramente ocultadas. Esta verdadeira ditadura discursiva bloqueia a capacidade de pensar e reflectir criticamente o universo das práticas e dos sistemas desportivos.
O discurso político sobre o desporto tem sido, em muitas situações, um discurso solitário. Refugia-se num certo número de aparentes verdades, como recusa a se confrontar com a a actualidade e transversalidade do “fenómeno desportivo ”.A consequência dessa atitude, traduz-se num verdadeiro autismo e na dificuldade da sua legitimação fora do círculo “desportivo “e com dificuldades de espaço e de afirmação no interior das políticas sociais. A alteração desta situação não é fácil, atendendo a que o desporto ao longo do tempo, construiu sobre si mesmo, dogmas que teima em não confrontar com a realidade. E viveu sempre em regime de economia de argumentos. Se o pretendido é alterar a situação mais cedo ou mais tarde, vai ter de o fazer.


publicado por José Manuel Constantino às 08:47

22
Fev 06
A frota automóvel do Estado não é apenas o parque de viaturas ao serviço de ministros e secretários de estado. São milhares de meios espalhados por tudo quanto é administração pública. A situação é miserável. Viaturas com milhares de quilómetros e com custos de manutenção elevados.Consumos de combustível excessivos. Viaturas que não passam nas inspecções periódicas. Muitos serviços sem viaturas. Muitos trabalhos que não são feitos porque não existem viaturas.
Seria interessante saber quanto gasta o Estado na manutenção do respectivo parque de viaturas. Mas a experiência de muitos, entre os quais nos incluímos, é suficiente para saber que num grande número de situações era mais barato ao Estado adquirir novas viaturas (até pelas vantagens dos sistemas de leasing) do que manter as antigas. Uma boa gestão da frota automóvel do Estado assim o aconselharia porque se traduziria numa significativa economia de custos.
Numa medida que só agrava as despesas de funcionamento do Estado o actual Governo determinou o congelamento da aquisição de novas viaturas e da decisão deu conhecimento para o exterior da administração pública.
É uma decisão demagógica que sai cara ao país. Jogando com um sentimento da opinião pública, que associa viatura do Estado a mordomia, procura a popularidade fácil ao considerar que adquirir novas viaturas é um gasto que não é prioritário. Mas só quem não conhece a situação pode pensar que esta é uma medida de poupança. Não o é, e só aumenta as despesas do Estado ou seja, prejudica o país.
Agora, e invocando a carência de motoristas, o ministro das finanças pretende reduzir o número de servidores do estado que podem usufruir de motorista. No actual enquadramento legal só é possível, para além do pessoal dos ministérios e gabinetes, a directores gerais e equiparados situação que está longe de ser cumprida porque são muitos, os que na administração pública, não tendo direito a motorista, o utilizam para fins estranhos ao serviço público. A medida anunciada é positiva O que é absurdo é a necessidade de um director geral ou equiparado, se precisar de utilizar uma viatura e não dispuser de motorista, ter de pedir autorização ao ministro das finanças cujo despacho tem direito a publicação no Diário da República.
Mas o facto de a medida ser positiva, em nada altera a questão de fundo que é o da gestão do parque automóvel do Estado não poder continuar a consumir recursos com viaturas envelhecidas, viaturas apreendidas e aqui e ali com aquisições topo de gama dos que tendo expediente e conhecimentos criam para eles as respectivas excepções.
publicado por José Manuel Constantino às 09:03

21
Fev 06
As eleições na Palestina, a democracia que parece implementar-se dia-após-dia em algumas partes do globo, toda a polémica à volta dos cartoons, as realidades sociais profundamente divergentes no concerne à religião e quiçá algum fanatismo à sua volta, fizeram-me voltar a um livro lido há uns tempos. Fareed Zakaria escreveu “O Futuro da Liberdade” e nele fala da confusão que muitas vezes fazemos sobre o tema liberdade vs democracia. A dada altura diz: “ ‘Suponham que as eleições são livres e justas e são eleitos os racistas, os fascistas, os separatistas’, afirmou o diplomata alemão americano Richard Holbrooke a propósito da Jugoslávia, nos anos 90 do século XX. ‘Esse é o dilema’. Na verdade, é-o, não apenas no passado na Jugoslávia, mas no mundo actual considere-se, por exemplo, as mudanças que cruzam o mundo islâmico. Nós reconhecemos a necessidade da democracia nesses Estados, normalmente repressivos. Mas se a democracia conduzir a uma teocracia islâmica ou a qualquer situação do género?”
A democracia instituída nem sempre leva a uma liberdade individual, onde cada um é respeitado pelas suas crenças e ademais. Na verdade, e embora a democracia seja o pior dos sistemas políticos depois de todos os outros, era bom que surgisse alguém, com uma capacidade supra-humana e criasse um sistema político onde a liberdade individual fosse obrigatória e as quezílias menores, como por exemplo a liberdade de expressão sobre a forma de cartoons, não levasse ninguém a ficar indignado, nem outros a pedirem perdão, fazendo aumentar a noção (irreal) de que os que se indignaram têm razão. Cá por mim, que sou cristã convicta, nunca deixei de dormir ou indignar-me com tantas coisas que já foram ditas e desenhadas sobre a Igreja Católica. No entanto, acredito que se nos achamos no direito de invadir um país por acharmos que tinham armamento e não tinham nada e depois foram só balelas à volta dos direitos humanos e blá, blá e blá (são violados os direitos humanos diariamente em alguns países… pobres, claro, e ninguém os invade), não nos podemos queixar de fanatismo e desorientação moral. Quem não pecou, que atire a primeira pedra.

publicado por José Manuel Constantino às 12:17

O governo de José Sócrates tem uma indesmentível capacidade de marcar a agenda política e através dela condicionar a agenda mediática.O que revela,entre outros aspectos, uma clara vantagem relativamente a executivos anteriores.
A politica também se faz deste modo e o governo tem sabido como o fazer.Goza naturalmente de algumas vantagens que não são indiferentes a esse sucesso.Mas sabe aproveita-las.
Um governo de esquerda ( ou que se afirme como tal) tem uma tolerância social que a direita não goza e por isso pode praticar políticas contra direitos sociais sem a contestação e o desgaste, que um governo de direita invariávelmente sofreria.
O actual governo tem,por algum tempo, um crédito de comparação com os governos que o antecederam e que, num caso, se tratou de uma fuga clara às responsabilidades políticas(Durão Barroso) e, no outro, de uma sequência infindável de problemas reflectindo a elementar ausência de sentido de responsabilidade e de preparação para o exercício de altas funções públicas(Santana Lopes).
Mas goza ainda de uma oposição à direita, frágil, sem alma, com uma liderança (Marques Mendes) que reúne tudo quanto de mais negativo o aparelhismo partidário pode concentrar e que serve apenas para deixar livres aqueles que surgirão quando, de novo, o poder estiver próximo. Os debates parlamentares têm sido penosos para a oposição e humilhantes para Marques Mendes.
Estas facilidades que o governo dispõe não devem escamotear a inteligência e o sentido de oportunidade política que José Sócrates tem demonstrado em contraponto a alguns dos seus que não estudam ( nem aprendem) a lição. Freitas do Amaral corre sózinho, pondo-se a jeito para a próxima alteração governamental.Correia de Campos adora ouvir-se e quer ganhar a Bagão Félix falando todos os dias, de manhã,à tarde e à noite. Isabel Pires de Lima acumula erros com asneiras e tem prazo de validade ultrapassado.Muitos dos ministros hibernaram ou dedicam-se a falar do futuro ou da pesada herança. Alguns secretários de estado fazem de ministros. Mas o que passa para o exterior, apesar de tudo, é controlado.
O mérito de José Sócrates é ainda maior se tivermos presente que num ano sofreu duas derrotas eleitorais consecutivas e até nisto mostrou mestria na arte de reparar danos.
Falta o mais difícil: provar o que, substantivamente, tem para dar ao país.É que a governação não pode viver, apenas, de uma boa gestão da agenda politico/mediática. É que, como afirma Constança Cunha e Sá ,”um ano depois de ter ganho as eleições, o principal trunfo de Sócrates é a memória ainda viva do que foi Santana Lopes”.

publicado por José Manuel Constantino às 08:34

20
Fev 06
As relações da política com o desporto são historicamente recentes. Ao longo dos últimos cinquenta anos evoluíram de um envolvimento ocasional, casuístico muitas vezes, à introdução do desporto no âmbito das diferentes políticas públicas e à sua relação estreita com as organizações e os movimentos desportivos nacionais. O que tem sido feito requer reflexão e debate, procurando travar uma tendência seguidista que parece não ter tempo para reflectir sobre o rumo do desporto nas últimas décadas.
Essa ausência de compreensão, do que mudou na sociedade e no desporto, é uma parte do problema que ajuda a perceber porque razão as políticas públicas de apoio ao desporto passam por dificuldades no domínio operacional e no plano conceptual. Uma ocorrência que não é exclusivamente portuguesa.
A progressiva convicção de que o desporto se desenvolveu mais rapidamente do que os sistemas de organização política que o enquadram é um dado adquirido. Nos sistemas desportivos, há fenómenos novos para os quais as soluções políticas tradicionais já não são suficientes.
O exercício mais simples é tudo reduzir a um simples problema de financiamento. Que existindo, não vale a pena negá-lo ou subestima-lo, cobre um outro mais profundo: a desadequação do modelo de abordagem do desporto e das políticas que o devem sustentar.
Nos tempos que estamos a viver a sociedade diferenciou-se e complexificou-se aumentando o grau de indeterminação social. Como adverte Giddens (1992) ao maior conhecimento sobre a vida social não tem equivalido a um maior controle sobre o nosso futuro.Com o desporto passa-se o mesmo. O desporto é, cada vez mais plural, diversificado e criativo, num tempo e num espaço cada vez mais interdependentes de outras variáveis sociais, aumentando o grau de multiplicidade de condicionantes e da sua própria reflexividade.
As dificuldades residem também no interior da instância política, a qual, carece de questionamento porque está debilitada e sem alma perante o esgotamento doutrinário que vem sofrendo. As tradicionais formas de representação política, os partidos, estão cada vez mais confinados a uma lógica de tribalização clubistica, sem ideologia e separados da sociedade e dos problemas com que se confronta. A importância e o peso da comunicação social, como mediador social, transformaram a política num exercício de comunicação em que o modo e a forma do que se diz, prevalece sobre o conteúdo do que se faz.
As doutrinas e as ideologias foram ocupadas pelas estratégias de comunicação e marketing políticos e a preocupação essencial é “fazer passar a mensagem”.Um bom assessor de imprensa cobra mais que um técnico qualificado. A eficácia da mensagem requer que, para isso, seja simples mesmo perante problemas que pela sua natureza são complexos. O desporto tem acrescidas dificuldades de espaço para o seu questionamento político. Sem tradição no discurso político os tempos actuais não são os mais favoráveis a essa inclusão. Por isso o exercício da governação ou da oposição é enunciar à exaustão, um quadro de necessidades imaginando que a sua enunciação equivale à sua resolução.
A génese de muitos dos constrangimentos de natureza desportiva está ligada a variáveis da política global. São problemas económicos, de emprego, educativos (e não apenas escolares) demográficos, de ordenamento do território, de saúde, de urbanismo. Esta dimensão global dos problemas – a qual reclama uma perspectiva transversal da politica desportiva -, aliada à volatilidade das condições presentes, ao ritmo das próprias transformações ocorridas no desporto, conduzem-nos, a uma acrescida dificuldade em definir, organizar e estabilizar as políticas desportivas. A mutabilidade do desporto passa a ser uma variável que tem de estar presente em qualquer perspectiva que procure equacionar e repensar estrategicamente as funções do Estado e a acção dos serviços de administração pública desportiva.
O desporto é hoje um produto que se desenvolveu mais rapidamente do que os seus tradicionais locais de produção. Que demonstrou ser possível existir à margem dos seus protagonistas tradicionais. Um desporto que se referencia ao rendimento, mas também à educação e à socialização das crianças e dos jovens, à recreação e ao tempo livre, à reeducação e à reabilitação de populações especiais, ao culto do corpo.
O futuro da organização e desenvolvimento da prática desportiva, desenha-se a partir de modelos, uns paralelos, outros alternativos aos modelos tradicionais, os quais assentaram, por exclusivo, no movimento desportivo associativo. Esta constatação obriga a repensar toda a leitura que se tem feito do sistema desportivo, com óbvias consequências ao nível das políticas de desenvolvimento desportivo.
As respostas políticas não podem ser as mesmas ainda que recicladas por um discurso “pronto a servir” que pensa o desporto de hoje como foi pensado há duas décadas. A sociedade e o desporto estão muito à frente.Não perceber o que mudou nas sociedades de hoje e no desporto que temos é meio caminho para o insucesso.Os sinais,para usar uma palavra tão presente no discurso de José Socrates,aí estão.


publicado por José Manuel Constantino às 08:49

17
Fev 06
Os nossos ouvidos proporcionam-nos dois sentidos vitais, mas muito diferentes: a audição e o equilíbrio.
Ouvir e equilibrar são duas necessidades nem sempre compatibilizadas. Podemos ouvir bem ou até de ouvir de mais, mas viajarmos de barco e enjoarmos, parece que por efeito da alteração dos sistemas que comandam o equilíbrio.
A ser assim, um bom ouvido não é sinónimo de um bom equilíbrio. E um bom equilíbrio não é garantia de um bom ouvido. O que coloca uma questão curiosa que é a de possuirmos um órgão que funciona bem para umas coisas e não funciona para outras, o que é diferente, apesar de tudo, de um órgão que só funciona às vezes, ou que, sempre tendo funcionado bem, depois, parece que já não quer funcionar.
Mas o ouvido não serve apenas para ouvir e para equilibrar. Tem também outros usos e sentidos. Fazer ouvidos de mercador significa fingir que se não ouviu ou fazer-se desentendido. Ser todo ouvidos é prestar atenção. Ter os ouvidos cheios é ter sido influenciado por alguém ou ouvir muitas vezes a mesma coisa. Empranhar pelos ouvidos é dar atenção a mexericos ou acreditar em tudo o que se ouve. Conhecer um assunto de ouvido é saber por transmissão oral.
Oral é também uma palavra de agregação polissémica com vários sentidos e significados. Quando era jovem estudante detestava ir à oral, que era o exame sob a forma de interrogatório. Mas nos tempos que correm, oral é um adjectivo carregado de significações interessantes e que, em certos momentos, homens e mulheres gostam de conjugar .
Curiosamente com as mesmas letras ou seja o o, o r, o a, e o l, podemos constituir a palavra ralo que é um insecto ortóptero muito nocivo da família dos Grilídeos, ou ralo, como o buraco ou orifício do bidé que é uma bacia oblonga que serve para, homens e mulheres lavarem as partes, ou seja as zonas genitais. Ou ainda ralo significando pouca espessura ou densidade que é uma coisa que acontece com o cabelo quando começa a enfraquecer e a cair. Existe ainda ralo como conjugação do verbo ralar que significa apoquentar ou afligir.
Não é só o ouvido que serve para mais de uma coisa. Com as expressões pode acontecer o mesmo. Têm significados distintos de acordo com as circunstâncias. Substituir um alto cargo da administração pública uma semana depois de lhe ter dado posse era, no governo de Santana Lopes, uma trapalhada. Idêntica ocorrência no governo de José Sócrates é uma acto de normalidade democrática. Paradoxos da língua(e da política) portuguesa!
publicado por José Manuel Constantino às 09:05

16
Fev 06
Um exemplo típico, da ignorância do fenómeno da violência, da sua génese e desenvolvimento, é a atitude insensata de algumas polícias, ao se disporem, antes de jogos de alto risco, a explicar perante todo o aparato comunicacional como estarão organizadas no terreno, os meios que possuem e a forma como coordenarão a operação. O que deveria ser discreto e reservado, e apenas do conhecimento próprio, é objecto de publicitação transformando as autoridades policiais em protagonistas do espectáculo com um estatuto similar ao de outro tipo de intervenientes. Ao fazê-lo é o melhor contributo que podem prestar a grupos organizados de adeptos elevando o seu reconhecimento como “inimigos” e inscrevendo-se na lógica própria desse grupos É isso que eles esperam e é nisso que, as autoridades policiais, candidamente colaboram, fascinados pelo estatuto que lhes é conferido pela comunicação social ao “aparecerem” a “comunicar”.
Na mesma linha de actuação está o comportamento de algumas autoridades políticas e civis e de meios de comunicação social que tratam os líderes das claques, como uma espécie de parceiros sociais, respeitáveis cidadãos os quais há que ouvir, contar com eles e ajudar a participar na “grande festa do futebol”. Esta vulnerabilidade social valoriza os comportamentos desviantes e legitima o estatuto destes grupos. O sociologismo de “tipo policial”, a par do contributo sempre inestimável de alguns académicos, tem ajudado a legitimar comportamentos violentos, explicando-os por razões sociais, as quais, são particularmente desresponsabilizantes e deficitárias da compreensão e das singularidades que o fenómeno transporta.
Os estudos relativos aos espectáculos desportivos e às sub - culturas das modalidades são, quase, inexistentes. Mas alguns estudos, no âmbito da psicologia experimental, apontam no sentido, em que, a visualização de um espectáculo com violência tem como consequência aumentar a própria violência ao provocar uma antecipação cognitiva favorável à instigação da agressividade dos espectadores propensos a serem violentos. O que questionaria o papel das televisões na captação e repetição de imagens com comportamentos violentos.
A evolução deste problema está também condicionada pelo aparecimento de fenómenos de tipo social ligados a grupos portadores de ideologias racistas e fascistas, os quais, procuram infiltrar as claques e espalhar a violência gratuita. O reforço dos sistemas de controlo no interior dos estádios obrigou estes grupos a deslocarem as suas acções para o exterior, designadamente para os percursos de acesso ou de regresso dos locais de competição. O acontecimento desportivo para este tipo de grupos é apenas um pretexto. O objectivo é a violência independentemente das incidências e do resultado de uma competição. Casos existem em que, a violência é exercida sobre grupos análogos e que pertencem ao mesmo espectro clubista.
A organização de um espectáculo desportivo é, em algumas modalidades, uma verdadeira operação militar. Fardados, paisanos, com ou sem outros auxiliares de segurança, dispõem-se no interior e no exterior do espaço desportivo e controlam os acessos para e do local da competição. Ninguém parece saber quanto custam estas operações. Em despesas com consumíveis, em vencimentos e remunerações acessórias às forças de segurança, em combustível, em equipamentos, em refeições, em material. Alguns lugares, como as “estações de serviço”, passam a ter vigilância especial e instituem-se como lugares míticos da violência gratuita organizada.
Estes são fenómenos novos e a sociedade pouco incómodo revela perante este tipo de situação. A brutalidade e boçalidade reinantes cabem no interior do socialmente aceitável. Cânticos obscenos, palavras e insultos xenófobos e racistas, gestos impróprios de gente civilizada, estão dentro daqueles limites. O paradoxo reside no facto de que um grau de maior exigência cultural, característico dos tempos presentes, ser possível em regime de coabitação com comportamentos e condutas mais próprios de anteriores estados civilizacionais.
Imaginar que o combate a este problema se faz com reuniões e dialogando com os responsáveis é políticamente interessante,mas de facto irrelevante.
publicado por José Manuel Constantino às 08:58

15
Fev 06
A violência associada ao desporto é tão antiga quanto os próprios jogos e o desporto. É universal e não pertença de uma cultura, de uma época ou de um lugar concreto. Ao se estudar a história do desporto encontramos em todos os períodos comportamentos violentos dos praticantes, dos espectadores ou de ambos. Embora o nível de legitimação, grau e tipo de violência bem como o de apreciação e aceitação sociais se tenha alterado ao longo dos tempos, aquela é uma constatação incontornável.
O entendimento que temos deste problema põe em causa os fundamentos de uma certa sociologia de carácter determinista que, marcada pela influência do marxismo e das condições sócio-políticas em que surgiu o fenómeno do “hooliganismo”, atribui o fenómeno da violência a um reflexo de factores de natureza sócio-económica.
Esse determinismo ajudou a criar no imaginário colectivo a ideia de que os comportamentos violentos encontravam fundamento em problemas de natureza social (desemprego, pobreza, marginalidade, etc.) e menos em factores de natureza cultural e civilizacional, neles incluindo a evolução do próprio espectáculo desportivo.
As violências ocorridas com os Jogos da Antiguidade ou posteriormente no período da Idade Média tinham motivos distintos e contextos também diferentes. Mas era violência e física. O que aos olhos de hoje nos surge como violência insuportável e insustentável, tinha então um sentido próprio no contexto de uma cultura singular. E respondia a momentos particulares, organizados especialmente para exultar e expulsar as tensões sociais.
A necessidade de manutenção da ordem, a regulação e o controle do espaço de jogo e do espaço envolvente, não são fenómenos recentes e acompanham a história do próprio desporto. O reconhecimento deste facto, que tem uma desigual distribuição pelas diferentes modalidades desportivas, não pode conduzir-nos a uma espécie de banalização do fenómeno da violência associada ao desporto. O facto de ser uma presença constante ao longo da história do desporto não anula a necessidade de procurar compreender o que existe de distinto nos comportamentos violentos do desporto contemporâneo.
A grande diferença reside em que, no plano dos espectadores ,passámos de uma violência espontânea, ocasional e reaccional para uma violência premeditada, planeada e programada. Esta alteração, que começou a surgir por volta dos anos sessenta, traduziu-se numa modificação do comportamento de grupos de espectadores e esteve associada ao fenómeno do “hooliganismo”.Até então, as invasões de campo ou os comportamentos violentos entre os espectadores, estavam relacionados com incidências do jogo ou rivalidades mantidas. O que se lhe segue é qualitativamente diferente, porque é uma violência que exige preparação, reflexão e coordenação. E passa a envolver como norma prévia à violência física, a violência simbólica, gestual, gráfica e comportamental.
A este tipo de violência está associada a evolução do próprio espectáculo desportivo designadamente a indústria do futebol, através do aumento da sua mediatização e da crescente juvenilização dos seus públicos. Esta alteração, “do público que vai ao futebol”, a par da crescente autonomização da juventude e de um conjunto de sub-culturas juvenis alterou por completo o espaço social dos estádios e dos campos de futebol.
A organização dos grupos de jovens em claques, com os seus rituais, cânticos, coreografias e motivações distintas das do público tradicional criou uma nova realidade. Uma realidade que, por sua vez, adquiriu uma significativa visibilidade social através da mediatização dos eventos e desenhando uma lógica ambivalente: os comportamentos desviantes passaram a ser socialmente censurados, e ao sê-lo, abastecem e alimentam a transgressão, porque são reconhecidos como socialmente relevantes.(continua)
publicado por José Manuel Constantino às 08:35

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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