Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

29
Nov 12

Já passaram alguns anos quando uma pessoa amiga que viajou com a equipa de futebol do Benfica me contou a surpresa que constituiu o facto de um dos guarda-redes ter passado a viagem a ler um livro enquanto os colegas se dividiam entre o ouvir música, jogar às cartas ou a dormir. Parecia ser uma pessoa diferente, com outras preocupações. Recordei esse facto agora que acabo de ler a biografia desse tal guarda-redes: Robert Enke. E o que mais me impressionou não foi tanto as suas preocupações intelectuais. Mas o contexto de medo e de insegurança que em certos momentos viveu como atleta de alta competição, que, no caso de Enke, derivou para uma situação depressiva que mais tarde o levou ao suicídio.

Numa sociedade que vive do espetáculo e da diversão, as estrelas do desporto são muitas vezes avaliados pelo lado das suas capacidades desportivas, é certo, mas também por um certo número de excentricidades chamem-se elas penteados, brincos ou tatuagens. Ou, num lado mais intimo, as mulheres que conquistam ou os carros em que passeiam. Ignoramos, ou pelo menos não damos a devida atenção, que existem pessoas com os seus pequenos ou grandes dramas existenciais. Esta situação parece não deixar tempo para nos questionarmos sobre o sentido civilizacional de uma competição agreste em que o sucesso pode valer milhões, mas que os milhões podem escapar, por uma convocatória que se falha ou um erro que se não consegue evitar. E em que a linha que divide uns ou outros ou o sucesso do insucesso é bem mais próxima que aquilo que imaginamos.

Qualquer que seja o resultado existe uma dimensão humana para além do espetáculo. Ao ler a biografia de Robert Enke recordei Fernando Mamede. E o pânico competitivo que em certos momentos o consumia e o inibia de revelar todas as capacidades e qualidades desportivas que indiscutivelmente possuía. E pergunto-me quantos casos equivalentes não ocorrem no mundo do desporto ainda que com menor repercussão pública. A literatura da especialidade, designadamente a ligada à psicologia do desporto, documenta abundantemente esta dimensão do comportamento dos atletas. Mas um certo otimismo ingénuo associado à ideia de desporto como lugar de vida fácil, de festa, como que esconde que um atleta talentoso é um ser humano com igual risco de patologias comportamentais. E que pode ocorrer quando menos imaginamos.

 

Publicado na edição de hoje do Primeiro de Janeiro

publicado por José Manuel Constantino às 15:49

16
Nov 12

Portugal, até á passada quarta-feira, era apresentado como um exemplo de paz social. Um país onde podia decorrer uma cimeira da Nato sem que um vidro fosse partido. Assistíamos a reportagens televisivas de manifestações em outros países e o contraste era evidente. De um momento para o outro tudo mudou. E as televisões internacionais passam os acontecimentos de Portugal que em nada diferem dos de Espanha, Grécia, França ou Itália: provocações à polícia , respetivas cargas policiais e um rasto de violência e destruição pelo caminho.

Afinal Portugal não dispunha de qualquer idiossincrasia especial que a excetuasse deste estado de coisas. Apenas, como é norma em outros domínios, uma espécie de modernidade tardia. As coisas chegam cá sempre mas mais tarde.

Como sucede nestas situações adiantam-se juízos explicativos. Seria bem melhor que se adiantassem procedimentos preventivos não apenas no domínio da segurança, mas também das políticas sociais que não criem terreno fértil ao desenvolvimento de radicalismos e de certo tipo de violência anarquista.

As democracias ocidentais, a crise que nelas habita e os radicalismos que as atingem não podem ser resumidos ao comportamento de meia dúzia de indivíduos ou a uma espécie de turismo da violência que passearia de pais em pais semeando a provocação e a desordem Há dinâmicas sociais e modos de organizar a vida das comunidades que fomentam o aparecimento de fenómenos de radicalismo político. Seria desastroso que os responsáveis políticos o não compreendessem.

Na quarta-feira a polícia fez o que foi obrigada a fazer. Provocada, insultada e agredida respondeu como lhe competia. E deve ficar por aí. Pretender avançar com explicações que ultrapassem o detalhe técnico da operação é terreno que não lhe pertence e que não deve pisar.

O governo resumiu o ocorrido a meia dúzia de provocadores. Desvalorizou o ocorrido. Se são apenas meia dúzia a situação será irrepetível. Qualquer sistema de segurança cairá numa situação ridícula se não consegue evitar a onda de distúrbios provocada por tão escassas pessoas. Seria mais avisado se o governo não se precipitasse em análises tão sumárias e simplistas. Porque em Portugal como nas restantes democracias ocidentais um certo tipo de radicalismo e violência juvenil chegou e não está para se ir embora tão depressa. E tem todas as condições para que a ela se juntem novos radicalismos de natureza mais corporativa. O desfile dos estivadores na manifestação de quarta-feira ou dos polícias dias antes, as palavras de ordem gritadas, os cartazes e a violência gestual exibidos dão para perceber que estamos perante um problema bem mais vasto e profunda.

 

Publicado na edição de hoje do Primeiro de Janeiro

publicado por José Manuel Constantino às 10:38

08
Nov 12

As manifestações políticas não são necessariamente um exercício de boas maneiras. Mas custa- me a aceitar que certos grupos profissionais polícias/professores/médicos a que nos habituámos a associar a certo tipo de valores institucionais optem por linguagens muitas vezes improprias para os valores que as sua profissões deveriam defender. Por muitas razões que assistam aos polícias podem perfeitamente lutar pelo que consideram ser os seus direitos sem recorrer a registos que se inscrevem mais no domínio da simples má educação do que da luta reivindicativa.

publicado por José Manuel Constantino às 16:23

02
Nov 12

Em alguns círculos existe a opinião de que os portugueses são a favor de cortes na despesa do Estado mas não pretendem que eles ocorram nas áreas onde contabilisticamente seriam mais significativos (saúde, segurança social e educação). Esta tese deixa por discutir uma outra realidade: a do corte de despesas que pesando menos na redução da despesa configuram uma atitude de responsabilidade e um exemplo perante os cidadaõs e a quem se impõem sacrifícios.

Um exemplo: os custos inerentes ao desempenho dos titulares de cargos públicos e respetivas assessorias, com esta ou outra designação. E o modo, criterioso ou não, como desempenhem as respetivas funções. Quer no âmbito estritamente político, quer no da administração pública existem muitas economias por fazer designadamente a privilégios de status e despesas de funcionamento. A sua anulação em nada prejudica a qualidade do serviço público prestado e seriam um exemplo de rigor e de moralização num momento tão difícil como aquele que o país passa.

Outro exemplo: o governo anunciou a aprovação de legislação restritiva no que respeita a pessoal de apoio aos autarcas. É positivo porque existem muitos abusos. Mas atenção: é o mesmo governo que para driblar a lei de limitação de pessoal de apoio aos gabinetes ministeriais recorreu à figura dos “especialistas” e está farto de meter gente nos gabinetes ministeriais Que não são especialistas. São comissários políticos. O Estado não pode despedir trabalhadores e ao mesmo tempo servir de lugar para emprego político. Nas áreas de especialidade de que careça o governo deve recorrer aos técnicos que existem na administração pública. Ganha em competência técnica. Poupa em remunerações, em ajudas de custo, em despesas de representação, em viaturas, em motoristas e respetivas horas extraordinárias. E nesta matéria o que se vai passar com os autarcas  deve-se passar com os membros do governo. De modo a que se não instale a ideia de que é mais fácil restringir aos outros, que a nós próprios

Outro exemplo ainda: os titulares de cargos públicos e equiparados recebem verbas para despesas de representação e subsídio de alimentação. Não faz sentido que não paguem as suas refeições ou que, um qualquer esquema permita que seja o erário público a suportar essa despesa através da apresentação de fatura aos respetivos fundos fixos de caixa.

O que impede o governo de terminar com as situações descritas e que envolvem despesas desnecessárias e, em alguns casos, claramente abusivas?

 

Publicado na edição de hoje do Primeiro de Janeiro

publicado por José Manuel Constantino às 10:15

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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