Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

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Mar 12

 

Quando os políticos passam a usar uma linguagem que se aproxima mais do mundo das telenovelas do que do universo de autores clássicos, começa a ser de temer o pior.

Francisco Assis, in Público,9.2.2012

 

Mário Soares considera que já não existem líderes políticos como outrora. Não sei se tem razão. Os problemas do mundo e dos países são hoje incomparavelmente mais complexos que os de outrora. E vivemos um tempo a que fomos conduzidos precisamente pelos líderes do passado. E onde gente muito bem preparada, culta e séria falhou. António Guterres terá sido o governante que reunia à partida as melhores qualidades e competências para as funções que exerceu e o resultado da sua governação é conhecido. As lideranças políticas não são redutíveis a qualidades pessoais e técnicas. E requerem características bem diferentes das de outrora. E a integração europeia e a globalização, ao diminuir as soberanias nacionais, reduziu em muito a capacidade de intervenção no espaço nacional. Pelo que a comparação corre o risco de ser errada. 

O certo é que os problemas, e a crise que lhes está associada, não nasceram hoje. São o resultado de anos de políticas que acrescentaram novos problemas aos problemas antigos. Vivemos um tempo, isso sim, de enorme confusão doutrinária e de bastante indigência retórica como escreveu o autor citado no início deste texto. E aí, de facto, há uma diferença substantiva. Hoje qualquer jovem político a quem a imprevidência deu um trabalho no Estado é capaz de teorizar sobre “as novas janelas de oportunidade” que constitui o desemprego jovem ou sobre o modo de “alavancar a economia” e o “empreendorismo” num ambiente narrativo digno da literatura de autoajuda. Mas tem muita dificuldade em estruturar um pensamento como um mínimo de profundidade e de substância.

A crise da social-democracia e o ascenso do neoliberalismo só vieram acentuar a perda crescente de valores substituídos por uma cultura modernaça feita de navegações na net e de powerpoint, dispensando a leitura e a reflexão, ignorando as doutrinas que civilizacionalmente nos moldaram em nome de um falso pragmatismo e de um linguajar retórico cheio de lugares-comuns pobre e sem substância. Daí ser avisada a citação de Francisco Assis que encima este comentário.

 

Publicado na edição de hoje do Primeiro de Janeiro  

publicado por José Manuel Constantino às 11:14

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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