Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

10
Fev 06
Enjoei o bacalhau com natas. E tenho procurado saber porquê! Se gosto de bacalhau cozido, de bacalhau à Brás, de bacalhau assado, bacalhau à espiritual, de açorda de bacalhau, de arroz de bacalhau, de pastéis de bacalhau, de caras de bacalhau, de ovas de bacalhau, de bacalhau no forno, de bacalhau à Zé do Pipo, de bacalhau à Gomes de Sá, porquê o enjoo ao bacalhau com natas?
Procurei pelo lado das natas. Nada feito. Gosto imenso dos pastéis das ditas. Gosto de tudo o que é feito com natas. Será porque uma coisa não liga com a outra? E qual delas é responsável pelo insucesso da ligação? O bacalhau ou as natas? Mas não pode ser, porque houve um tempo em que gostei. Pedi ajuda à ciência (?)que é um recurso sempre disponível quando uma questão nos persegue e não temos a resposta pronta.
Freud fala de recalcamento, de trauma, de desejo oculto. Escolhi o trauma. E escolhi bem. Prescutei o passado, o que não é propriamente tarefa simples, revi coisas e situações que já havia esquecido e hélas!, penso que descobri. Digo penso, porque, mesmo com o conhecimento científico, temos de ter algumas cautelas.
Para a minha geração, o final dos anos setenta foi marcado pelo divórcio. Era uma espécie de marca do tempo. Desfizeram-se casamentos que deram lugar a “casos”(ter um caso era andar com alguém), casos que se transformaram em uniões e uniões que deram lugar a casamentos num movimento de rotação uniformemente acelerado. Tudo se fazia e desfazia como as ondas na praia. Instantaneamente.
Ao sábado, mulher só ou a caminho disso, que convidasse homem para “lá ir a casa jantar,” invariavelmente, preparava bacalhau com natas. Ele levava o vinho( na altura ainda não havia o hábito do ramo de flores). O bacalhau com natas ocupava um lugar tão ou mais distinto que aquele que, anos mais tarde, veio a ocupar, por ordem decrescente, o fondue, o bife na pedra e a picanha. Não sei se o preparo tinha alguns efeitos afrodisíacos. Mas acho que não. Era uma moda, como dantes se ia a Badajoz comprar caramelos e pirexes e hoje se vai passar férias à República Dominicana ou à Serra Nevada (consoante as estações do ano) ou às Docas beber um copo.
Ora, recordo-me, com os limites que essa recordação impõe em termos de divulgação pública, que aceitei muitos desses convites. Aí está! Enjoei. Não os convites, mas o bacalhau com natas.

publicado por José Manuel Constantino às 08:37

Fevereiro 2006
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
18

19
25

26
28


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
pesquisar
 
blogs SAPO