Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

16
Fev 06
Um exemplo típico, da ignorância do fenómeno da violência, da sua génese e desenvolvimento, é a atitude insensata de algumas polícias, ao se disporem, antes de jogos de alto risco, a explicar perante todo o aparato comunicacional como estarão organizadas no terreno, os meios que possuem e a forma como coordenarão a operação. O que deveria ser discreto e reservado, e apenas do conhecimento próprio, é objecto de publicitação transformando as autoridades policiais em protagonistas do espectáculo com um estatuto similar ao de outro tipo de intervenientes. Ao fazê-lo é o melhor contributo que podem prestar a grupos organizados de adeptos elevando o seu reconhecimento como “inimigos” e inscrevendo-se na lógica própria desse grupos É isso que eles esperam e é nisso que, as autoridades policiais, candidamente colaboram, fascinados pelo estatuto que lhes é conferido pela comunicação social ao “aparecerem” a “comunicar”.
Na mesma linha de actuação está o comportamento de algumas autoridades políticas e civis e de meios de comunicação social que tratam os líderes das claques, como uma espécie de parceiros sociais, respeitáveis cidadãos os quais há que ouvir, contar com eles e ajudar a participar na “grande festa do futebol”. Esta vulnerabilidade social valoriza os comportamentos desviantes e legitima o estatuto destes grupos. O sociologismo de “tipo policial”, a par do contributo sempre inestimável de alguns académicos, tem ajudado a legitimar comportamentos violentos, explicando-os por razões sociais, as quais, são particularmente desresponsabilizantes e deficitárias da compreensão e das singularidades que o fenómeno transporta.
Os estudos relativos aos espectáculos desportivos e às sub - culturas das modalidades são, quase, inexistentes. Mas alguns estudos, no âmbito da psicologia experimental, apontam no sentido, em que, a visualização de um espectáculo com violência tem como consequência aumentar a própria violência ao provocar uma antecipação cognitiva favorável à instigação da agressividade dos espectadores propensos a serem violentos. O que questionaria o papel das televisões na captação e repetição de imagens com comportamentos violentos.
A evolução deste problema está também condicionada pelo aparecimento de fenómenos de tipo social ligados a grupos portadores de ideologias racistas e fascistas, os quais, procuram infiltrar as claques e espalhar a violência gratuita. O reforço dos sistemas de controlo no interior dos estádios obrigou estes grupos a deslocarem as suas acções para o exterior, designadamente para os percursos de acesso ou de regresso dos locais de competição. O acontecimento desportivo para este tipo de grupos é apenas um pretexto. O objectivo é a violência independentemente das incidências e do resultado de uma competição. Casos existem em que, a violência é exercida sobre grupos análogos e que pertencem ao mesmo espectro clubista.
A organização de um espectáculo desportivo é, em algumas modalidades, uma verdadeira operação militar. Fardados, paisanos, com ou sem outros auxiliares de segurança, dispõem-se no interior e no exterior do espaço desportivo e controlam os acessos para e do local da competição. Ninguém parece saber quanto custam estas operações. Em despesas com consumíveis, em vencimentos e remunerações acessórias às forças de segurança, em combustível, em equipamentos, em refeições, em material. Alguns lugares, como as “estações de serviço”, passam a ter vigilância especial e instituem-se como lugares míticos da violência gratuita organizada.
Estes são fenómenos novos e a sociedade pouco incómodo revela perante este tipo de situação. A brutalidade e boçalidade reinantes cabem no interior do socialmente aceitável. Cânticos obscenos, palavras e insultos xenófobos e racistas, gestos impróprios de gente civilizada, estão dentro daqueles limites. O paradoxo reside no facto de que um grau de maior exigência cultural, característico dos tempos presentes, ser possível em regime de coabitação com comportamentos e condutas mais próprios de anteriores estados civilizacionais.
Imaginar que o combate a este problema se faz com reuniões e dialogando com os responsáveis é políticamente interessante,mas de facto irrelevante.
publicado por José Manuel Constantino às 08:58

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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