Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

20
Fev 06
As relações da política com o desporto são historicamente recentes. Ao longo dos últimos cinquenta anos evoluíram de um envolvimento ocasional, casuístico muitas vezes, à introdução do desporto no âmbito das diferentes políticas públicas e à sua relação estreita com as organizações e os movimentos desportivos nacionais. O que tem sido feito requer reflexão e debate, procurando travar uma tendência seguidista que parece não ter tempo para reflectir sobre o rumo do desporto nas últimas décadas.
Essa ausência de compreensão, do que mudou na sociedade e no desporto, é uma parte do problema que ajuda a perceber porque razão as políticas públicas de apoio ao desporto passam por dificuldades no domínio operacional e no plano conceptual. Uma ocorrência que não é exclusivamente portuguesa.
A progressiva convicção de que o desporto se desenvolveu mais rapidamente do que os sistemas de organização política que o enquadram é um dado adquirido. Nos sistemas desportivos, há fenómenos novos para os quais as soluções políticas tradicionais já não são suficientes.
O exercício mais simples é tudo reduzir a um simples problema de financiamento. Que existindo, não vale a pena negá-lo ou subestima-lo, cobre um outro mais profundo: a desadequação do modelo de abordagem do desporto e das políticas que o devem sustentar.
Nos tempos que estamos a viver a sociedade diferenciou-se e complexificou-se aumentando o grau de indeterminação social. Como adverte Giddens (1992) ao maior conhecimento sobre a vida social não tem equivalido a um maior controle sobre o nosso futuro.Com o desporto passa-se o mesmo. O desporto é, cada vez mais plural, diversificado e criativo, num tempo e num espaço cada vez mais interdependentes de outras variáveis sociais, aumentando o grau de multiplicidade de condicionantes e da sua própria reflexividade.
As dificuldades residem também no interior da instância política, a qual, carece de questionamento porque está debilitada e sem alma perante o esgotamento doutrinário que vem sofrendo. As tradicionais formas de representação política, os partidos, estão cada vez mais confinados a uma lógica de tribalização clubistica, sem ideologia e separados da sociedade e dos problemas com que se confronta. A importância e o peso da comunicação social, como mediador social, transformaram a política num exercício de comunicação em que o modo e a forma do que se diz, prevalece sobre o conteúdo do que se faz.
As doutrinas e as ideologias foram ocupadas pelas estratégias de comunicação e marketing políticos e a preocupação essencial é “fazer passar a mensagem”.Um bom assessor de imprensa cobra mais que um técnico qualificado. A eficácia da mensagem requer que, para isso, seja simples mesmo perante problemas que pela sua natureza são complexos. O desporto tem acrescidas dificuldades de espaço para o seu questionamento político. Sem tradição no discurso político os tempos actuais não são os mais favoráveis a essa inclusão. Por isso o exercício da governação ou da oposição é enunciar à exaustão, um quadro de necessidades imaginando que a sua enunciação equivale à sua resolução.
A génese de muitos dos constrangimentos de natureza desportiva está ligada a variáveis da política global. São problemas económicos, de emprego, educativos (e não apenas escolares) demográficos, de ordenamento do território, de saúde, de urbanismo. Esta dimensão global dos problemas – a qual reclama uma perspectiva transversal da politica desportiva -, aliada à volatilidade das condições presentes, ao ritmo das próprias transformações ocorridas no desporto, conduzem-nos, a uma acrescida dificuldade em definir, organizar e estabilizar as políticas desportivas. A mutabilidade do desporto passa a ser uma variável que tem de estar presente em qualquer perspectiva que procure equacionar e repensar estrategicamente as funções do Estado e a acção dos serviços de administração pública desportiva.
O desporto é hoje um produto que se desenvolveu mais rapidamente do que os seus tradicionais locais de produção. Que demonstrou ser possível existir à margem dos seus protagonistas tradicionais. Um desporto que se referencia ao rendimento, mas também à educação e à socialização das crianças e dos jovens, à recreação e ao tempo livre, à reeducação e à reabilitação de populações especiais, ao culto do corpo.
O futuro da organização e desenvolvimento da prática desportiva, desenha-se a partir de modelos, uns paralelos, outros alternativos aos modelos tradicionais, os quais assentaram, por exclusivo, no movimento desportivo associativo. Esta constatação obriga a repensar toda a leitura que se tem feito do sistema desportivo, com óbvias consequências ao nível das políticas de desenvolvimento desportivo.
As respostas políticas não podem ser as mesmas ainda que recicladas por um discurso “pronto a servir” que pensa o desporto de hoje como foi pensado há duas décadas. A sociedade e o desporto estão muito à frente.Não perceber o que mudou nas sociedades de hoje e no desporto que temos é meio caminho para o insucesso.Os sinais,para usar uma palavra tão presente no discurso de José Socrates,aí estão.


publicado por José Manuel Constantino às 08:49

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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