Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

21
Fev 06
As eleições na Palestina, a democracia que parece implementar-se dia-após-dia em algumas partes do globo, toda a polémica à volta dos cartoons, as realidades sociais profundamente divergentes no concerne à religião e quiçá algum fanatismo à sua volta, fizeram-me voltar a um livro lido há uns tempos. Fareed Zakaria escreveu “O Futuro da Liberdade” e nele fala da confusão que muitas vezes fazemos sobre o tema liberdade vs democracia. A dada altura diz: “ ‘Suponham que as eleições são livres e justas e são eleitos os racistas, os fascistas, os separatistas’, afirmou o diplomata alemão americano Richard Holbrooke a propósito da Jugoslávia, nos anos 90 do século XX. ‘Esse é o dilema’. Na verdade, é-o, não apenas no passado na Jugoslávia, mas no mundo actual considere-se, por exemplo, as mudanças que cruzam o mundo islâmico. Nós reconhecemos a necessidade da democracia nesses Estados, normalmente repressivos. Mas se a democracia conduzir a uma teocracia islâmica ou a qualquer situação do género?”
A democracia instituída nem sempre leva a uma liberdade individual, onde cada um é respeitado pelas suas crenças e ademais. Na verdade, e embora a democracia seja o pior dos sistemas políticos depois de todos os outros, era bom que surgisse alguém, com uma capacidade supra-humana e criasse um sistema político onde a liberdade individual fosse obrigatória e as quezílias menores, como por exemplo a liberdade de expressão sobre a forma de cartoons, não levasse ninguém a ficar indignado, nem outros a pedirem perdão, fazendo aumentar a noção (irreal) de que os que se indignaram têm razão. Cá por mim, que sou cristã convicta, nunca deixei de dormir ou indignar-me com tantas coisas que já foram ditas e desenhadas sobre a Igreja Católica. No entanto, acredito que se nos achamos no direito de invadir um país por acharmos que tinham armamento e não tinham nada e depois foram só balelas à volta dos direitos humanos e blá, blá e blá (são violados os direitos humanos diariamente em alguns países… pobres, claro, e ninguém os invade), não nos podemos queixar de fanatismo e desorientação moral. Quem não pecou, que atire a primeira pedra.

publicado por José Manuel Constantino às 12:17

O governo de José Sócrates tem uma indesmentível capacidade de marcar a agenda política e através dela condicionar a agenda mediática.O que revela,entre outros aspectos, uma clara vantagem relativamente a executivos anteriores.
A politica também se faz deste modo e o governo tem sabido como o fazer.Goza naturalmente de algumas vantagens que não são indiferentes a esse sucesso.Mas sabe aproveita-las.
Um governo de esquerda ( ou que se afirme como tal) tem uma tolerância social que a direita não goza e por isso pode praticar políticas contra direitos sociais sem a contestação e o desgaste, que um governo de direita invariávelmente sofreria.
O actual governo tem,por algum tempo, um crédito de comparação com os governos que o antecederam e que, num caso, se tratou de uma fuga clara às responsabilidades políticas(Durão Barroso) e, no outro, de uma sequência infindável de problemas reflectindo a elementar ausência de sentido de responsabilidade e de preparação para o exercício de altas funções públicas(Santana Lopes).
Mas goza ainda de uma oposição à direita, frágil, sem alma, com uma liderança (Marques Mendes) que reúne tudo quanto de mais negativo o aparelhismo partidário pode concentrar e que serve apenas para deixar livres aqueles que surgirão quando, de novo, o poder estiver próximo. Os debates parlamentares têm sido penosos para a oposição e humilhantes para Marques Mendes.
Estas facilidades que o governo dispõe não devem escamotear a inteligência e o sentido de oportunidade política que José Sócrates tem demonstrado em contraponto a alguns dos seus que não estudam ( nem aprendem) a lição. Freitas do Amaral corre sózinho, pondo-se a jeito para a próxima alteração governamental.Correia de Campos adora ouvir-se e quer ganhar a Bagão Félix falando todos os dias, de manhã,à tarde e à noite. Isabel Pires de Lima acumula erros com asneiras e tem prazo de validade ultrapassado.Muitos dos ministros hibernaram ou dedicam-se a falar do futuro ou da pesada herança. Alguns secretários de estado fazem de ministros. Mas o que passa para o exterior, apesar de tudo, é controlado.
O mérito de José Sócrates é ainda maior se tivermos presente que num ano sofreu duas derrotas eleitorais consecutivas e até nisto mostrou mestria na arte de reparar danos.
Falta o mais difícil: provar o que, substantivamente, tem para dar ao país.É que a governação não pode viver, apenas, de uma boa gestão da agenda politico/mediática. É que, como afirma Constança Cunha e Sá ,”um ano depois de ter ganho as eleições, o principal trunfo de Sócrates é a memória ainda viva do que foi Santana Lopes”.

publicado por José Manuel Constantino às 08:34

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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