Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

23
Fev 06
Um pensamento crítico sobre o desporto e as suas práticas é um exercício indispensável sob pena de se acumularem intenções e objectivos que o desporto, supostamente, deveria garantir e que teima em não atingir. A autonomia relativa do sistema desportivo nas suas relações com outras esferas da actividade social num contexto de crescente mundialização das práticas desportivas tornam essa tarefa indispensável a uma actualização da identidade cultural do desporto.
Um pensamento crítico sobre o desporto é também útil como avaliação do capital de experiência que a história do desporto acumulou e que está muito para além da epopeia dos factos, dos nomes, dos acontecimentos ou dos resultados. Estamos perante novos desafios que se não adequam a velhas perplexidades explicativas. A maior visibilidade do desporto-questão incontroversa - levanta uma série de interrogações, porque coloca problemas novos e cria dinâmicas interpretativas, as quais, num número significativo de casos, estão longe de traduzir uma conhecimento com valor probatório sobre a realidade.
O discurso desportivo dominante, e que tem efeitos hegemónicos sobre a compreensão dos fenómenos desportivos, tem necessidade de ser confrontado com uma perspectiva critica das práticas do desporto. Existe um vasto campo de pensamento e de pesquisa, que está por preencher, se realmente pretendemos compreender a função social do desporto e o papel que desempenha nas sociedades modernas. A realização desse trabalho obriga a desafiar o “ património interpretativo “ de que o desporto é fiel depositário e que assenta num conjunto de “mitos” que dizem respeito à saúde,à educação, aos valores, à inclusão social,à violência,à dopagem etc,etc.
Esse exercício, que em parte tem sido feito por académicos e investigadores, é necessário que seja também praticado por que tem responsabilidades na organização das práticas do desporto (dirigentes políticos e desportivos) ,de modo a que se não alimentem análises e conceitos que estão profundamente desactualizados.
O discurso desportivo continua a ser, em grande número de situações, de natureza axiomática e apologético. Evidencia-se por si mesmo e não carece de demonstração. A sua enunciação é a prova das provas. É um discurso intelectualmente preguiçoso e estruturalmente conservador. Constrói sobre si próprio uma visão que se impõe como coisa natural, automática, sem necessidade de recorrer à reflexão ou ao debate. A consequência é que,depois,no discurso político sobre o desporto há matérias que nunca são enunciadas. Outras são puramente ocultadas. Esta verdadeira ditadura discursiva bloqueia a capacidade de pensar e reflectir criticamente o universo das práticas e dos sistemas desportivos.
O discurso político sobre o desporto tem sido, em muitas situações, um discurso solitário. Refugia-se num certo número de aparentes verdades, como recusa a se confrontar com a a actualidade e transversalidade do “fenómeno desportivo ”.A consequência dessa atitude, traduz-se num verdadeiro autismo e na dificuldade da sua legitimação fora do círculo “desportivo “e com dificuldades de espaço e de afirmação no interior das políticas sociais. A alteração desta situação não é fácil, atendendo a que o desporto ao longo do tempo, construiu sobre si mesmo, dogmas que teima em não confrontar com a realidade. E viveu sempre em regime de economia de argumentos. Se o pretendido é alterar a situação mais cedo ou mais tarde, vai ter de o fazer.


publicado por José Manuel Constantino às 08:47

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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