Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

24
Fev 06
A minha primeira colecção foi de lápis, mesmo antes dos cromos de jogadores de futebol ou dos selos. O meu pai trabalhava num armazém de distribuição de géneros alimentícios e recebia muitas ofertas de lápis como publicidade a vários produtos e empresas.Era o merchandizing daquele tempo. Os lápis tinham as mais diferentes características sobretudo nos tamanhos e nas espessuras. Uns eram cilíndricos, outros prismáticos. As inscrições publicitárias a cores diversas aumentavam-lhe a policromia. Fascinava-me tanta diversidade. Guardava-os numa pequena caixa de cartão e gostava de os manipular.Como eram da colecção não escrevia com eles.
Nesse tempo o lápis era um instrumento de trabalho. Usava-se para escrever, mas sobretudo para as contas. No comércio era comum encontrar quem usasse o lápis pousado na parte posterior da orelha como local de descanso e onde se ia buscar sempre que necessário. Que me recorde não existia ainda a esferográfica e nas escola era com o lápis que se escrevia nos cadernos, com a inseparável borracha para apagar, sempre que necessário, ou com o giz de lápis na pedra de ardósia onde se aprendia a fazer as contas.Existiam também os lápis de côres que serviam para colorir desenhos e gravuras (anos mais tarde foram,em parte, substítuidos pelas canetas de feltro).
O afiar do lápis através do que se conhece como afia ou apara-lápis não era própiamente um utensílio tão disseminado como nos dias de hoje. Lembro-me de o meu pai afiar o lápis com uma pequena navalha desbastando a madeira de onde saíam pequenas lâminas que depois eram cuidadosamente afastadas com um pequeno sopro até a grafite ficar sobre a forma de um bico fino, mas com uma espessura suficiente para se não quebrar quando utilizado. Era um exercício que exigia enorme destreza e uma perícia que tentava imitar, mas com resultados sempre desastrosos.
Na escola admirava os colegas que com o lápis desenhavam com mestria e faziam sombreados nas peças desenhadas à vista, coisa que nunca fui capaz. A afeição pelos lápis manteve-se ao longo dos tempos mesmo quando ganhei o prazer da escrita cujo exercício e volúpia exigia a presença e o contributo de caneta “ de tinta permanente”.Ligação que ainda mantenho, mas que tem, agora, a concorrência do teclado do computador.
Mas o gosto pelo lápis resistiu ao tempo. Num hotel, prefiro que em cima da mesa de cabeceira do quarto esteja um lápis a uma incaracterística esferográfica e na pasta de um congresso aprecio um lápis a um qualquer outro meio de escrita.Guardo-os sempre com carinho e utilizo-os com frequência.
As marcas alemãs fabricam os melhores lápis. A Faber-Castell, a Johann Faber, a Staedtler possuem belos e úteis lápis. Mas em Portugal também se produzem bons lápis da marca Viarca.
Os lápis vermelhos são os mais comercializados, mas os que mais gosto são os amarelos listados a preto em formato poliédrico. Quando bem afiados têm um porte imperial e uma escrita suave, sobretudo o número 2.A colocação na parte de cima de uma pequena borracha torna-os autosuficientes na sua missão mas, a meu ver, retiram-lhe qualidade estética.Prefiro-os sem aquele adereço. É um companheiro inseparável da leitura para sublinhar os livros.
O transporte do lápis coloca algumas limitações. No casaco corre o risco de quebrar o bico ou de ser incómodo para o corpo. A lapiseira é uma alternativa tecnológica mas que lhe rouba a alma. Lápis é lápis. A solução será acondicioná-lo num estojo próprio. Ou então, ter sempre um lápis disponível nos locais de trabalho.
Quem gosta de lápis é orgulhoso e possessivo em relação a ele. Não o abandona e não deixa que outros o levem. Presta-lhe atenção, afia-o e usa-o.

publicado por José Manuel Constantino às 08:38

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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