Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

27
Fev 06
O último número da revista SÁBADO publica dois artigos em que critica os professores e os respectivos sindicatos. António Barreto retoma o tema na sua crónica dominical no Público. O mote são as aulas de substituição e reflectem um estado de espírito que se instalou no país e cuja responsabilidade tem várias autorias. Dizer mal dos professores adquiriu elevada cotação no espaço mediático.
Os problemas da escola e do ensino são uma parte dos problemas da educação.A redução dos problemas da educação aos problemas escolares é uma pura idiotice para qual têm contribuido o ministério da educação - que só trata de problemas escolares e com eles pretende resolver os problemas da educação- os sindicatos, as escolas de formação e alguns comentadores políticos que são, simultaneamente, professores universitários. Misturam conceitos e contextos organizacionais distintos e, quase sempre, pedem à escola e aos professores o que, ela e eles, não estão preparados para fazer. A sua missão é apenas, e já é muito, o de ensinar. Sei que nem todos assim pensam mas entendo que a escola serve como local de transmissão de conhecimentos. A configuração do acto de ensino em “ciência da educação”com os seus oráculos e investigações e as suas “pedagogias centradas no aluno” são o remate final para a crescente desqualificação da escola e com ela do acto e da missão de ensinar.
Os sindicatos mais representativos dos professores andaram, ano após ano, a defender causas justas porque importantes, designadamente o da estabilização e qualificação do corpo professoral, com causas sindicais sem sentido, como o dos direitos do estatuto docente entre os quais o do horário de trabalho. A promiscuidade entre o dirigismo sindical e partidário ajudou à sua desqualificação. Mas, concorde-se ou discorde-se da sua acção, qualquer governo (ainda para mais socialista e de esquerda) não os pode tratar com sobranceria.
O ministério da educação, o actual e os anteriores(exceptua-se o do governo de Santana Lopes por inverosímel) têm procurado estabilizar a gestão do sector, alternando o bom e o mau.O bom com tudo quanto procura introduzir mecanismos de rendibilização e disciplina de meios e de recursos.O mau sempre que o faz de forma cega e ignorando que a política se faz com as pessoas.Para muitos dos responsáveis políticos os professores não são um aliado estratégico fundamental. São um adversário a combater, muitas vezes a vergar.Muitos dos que passam pela 5 de Outubro não gostam dos professores. Têm deles uma ideia desqualificante. Isso é patente no enfado com que falam e tratam com os professores apesar de, muitos deles, serem professores. Suspeito que nunca gostaram de o ser.
Algum do jornalismo de causas, que está na moda, também não gosta dos professores. Acham que os professores ganham de mais para aquilo que trabalham. Ou que não querem trabalhar. Alguns dos que se insurgem contra os professores têm experiências escolares fracassadas. Pouco aplicados enquanto alunos, notas fracas, passagens à tangente. O que recordam da escola não é famoso. Escasseia-lhes autoridade moral. Os artigos de opinião são simples ajustes de contas com o passado.Misturam a arrogância com a ignorância.O resultado como é de prever não é famoso.
O que se passa com os professores enquanto grupo profissional não é distinto do que se passa com outros corpos profissionais.A passagem de uma escola de elite para uma escola de massas e a entrada na profissão de muitos que são professores, não por opção e vocação mas por contingências do mercado de trabalho, acentuaram os factores de agravamento e de gestão do problema. A crise global da instituição escolar agravou a situação. Não existe um sistema escolar europeu que não passe por uma crise de identidade profunda.
A maneira mais simples, mas demagógica, de abordar o assunto é como a revista Sábado o faz: os professores são uma espécie de preguiçosos qualificados que querem ganhar, sem para tanto trabalharem. Para rebate de consciência apressam-se a dizer que não são a maioria. Contaram-nos?
Algum do jornalismo que se faz sobre a escola revela preconceito. É falta de escola. E de seriedade.
publicado por José Manuel Constantino às 08:03

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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