Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

13
Out 06

Salazar morreu. O salazarismo como dimensão política de um certo tipo de ideologia totalitária não tem expressão social. Mas o salazarismo enquanto atitude, mentalidade e forma de conduta permanece e está muito para além da sua dimensão política. É na denúncia anónima, com um novo tipo de bufos, na ainda submissão  e temor reverencial do poder laico á igreja, no poder arbitrário e agressivo de muitas repartições públicas, no sentimento de fragilidade do cidadão comum perante a justiça e os seu órgãos, no nepotismo muitas vezes praticado, no clientelismo partidário.  A democracia integrou tudo isto e ao fazê-lo banalizou e legitimou muitos dos tiques e da  cultura do salazarismo. Para quem viveu durante a ditadura não pode deixar de ter como motivo de reflexão e de preocupação o facto da democracia e da liberdade não serem suficientes para a criação de uma cultura cívica que elimine práticas e comportamentos do regime anterior. É a propósito de tudo isto que bem escreve no jornal Público, José Pacheco Pereira na sua habitual  crónica das quintas-feiras.

 

publicado por José Manuel Constantino às 15:49

12
Out 06

Será aceitável que a Gala Anual de uma associação de jornalistas seja financiada pelos dinheiros públicos? Que esse financiamento de 25.000 euros se estime em cerca de 80% do custo total da iniciativa? Será que quem rubrica este tipo de acordo dorme descansado perante o código deontológico dos jornalistas? Com uma comunicação social tão ávida e atenta à descoberta de promiscuidades e uso ilegítimo de dinheiros públicos não existe, perante este caso, qualquer incomodidade ou sobressalto cívicos? Compreendo que não é fácil aos jornalistas abordarem as questões que dizem respeito aos jornalistas com o mesmo critério e severidade com que abordam outros grupos profissionais. O corporativismo toca a todos. E no caso, não existe código deontológico ou livro de estilo que valha perante tamanha falta de respeito. Pelos dinheiros públicos e pela profissão. Está tudo no Diário da República de segunda-feira.

publicado por José Manuel Constantino às 09:38

11
Out 06

Li o texto proposto para Estatuto da Carreira Docente. Fiz como a ministra da Educação propôs. Sem intermediários. Li horas antes de formalizar o fim de 33 anos de professor, dos quais 21 de docência. Uma leitura de proposta de estatuto com muito distanciamento. No final sem interesse. Para além das questões laterais, mas importantes, que respeitam à valorização da profissão de professor, a proposta de estatuto é o culminar da tomada de assalto das ciências da educação, aliadas à vulgata burocrática, ao que ainda restava da profissão de ensinar. Uma linguagem hermética, arredondada, típica de quem vive em gabinetes e ignora a sala de aula, e onde é clara a desvalorização dos saberes e do conhecimento. Prevalece uma obediência obsessiva à regulamentação e aos procedimentos. Em que o mais importante, o que se ensina e o que os alunos aprendem, dá lugar à verborreia pedagogista. E onde aqui e ali está patente a deriva autoritária como imagem de marca da actual ministra. O país, uma vez mais, arrisca-se , como no passado ,a pagar caro estes ímpetos reformadores.

publicado por José Manuel Constantino às 11:21

10
Out 06

Discrição na acção e visibilidade nos resultados, pediu Cavaco Silva ao novo Procurador. O mesmo é dizer menos conversa e mais resultados. È um pedido difícil quando procuradores, juízes,sindicalistas ,magistrados e polícias se fascinam perante a democracia mediática. E tal como os políticos adoram estar constantemente em cena, aparecer e falar. Há uma ambição e um prazer indisfarçáveis. É certo que é uma pequena minoria que se põe a jeito e está disponível para ocupar o espaço mediático. Mas cujo peso na opinião publicada é relevante. A justiça não é para todos um apostolado. E o aparecer é um prazer que para alguns é um encanto e uma servidão. Mesmo que os resultados do que se diz e defende sejam escassos. Mesmo quando a natureza das funções exigiam recato, prudência e distanciamento. 

publicado por José Manuel Constantino às 10:40

09
Out 06

 A cabeçada de Zidane sobre o Materazzi não valeu ao primeiro apenas o sucesso desportivo e empresarial que é conhecido. Agora é o agredido que publica em livro cerca de duas centenas e meia de frases que podiam ter sido proferidas,antes de receber a cabeçada , e entre as quais se encontra a verdadeira. A receita do livro reverte a favor de uma boa causa : a Unicef .Depois de Georges Weah ter enfiado uma cabeçada no Jorge Costa e tempos depois ter recebido o prémio fair-play da Fifa, tudo em nome das suas acções em prol das criancinhas do continente africano, chegou a vez das homólogas criancinhas da Unicef serem beneficiadas por mais uma cabeçada. Eis como as agressões no futebol se podem transformar num novo nicho de mercado para apoio a acções de solidariedade!

publicado por José Manuel Constantino às 11:12

06
Out 06

Governo e municípios bem fariam em aproveitar o tempo a discutir o que é importante -como cooperar no desenvolvimento do país - e a deixarem-se de trocas de acusação sobre o que cada um deve fazer, quem faz melhor que o outro ou quem mais contribui para  a dívida pública. A imagem que poder central e poder local deixam ao país é o de um regime  sitiado onde  nem o Estado, se entende sobre o modo como o país deve ser governado aos seus diferentes níveis. O que é surpreendente é a completa ausência de uma cultura de responsabilidade que evite discutir o papel do Estado, as suas competências e financiamento, numa perspectiva de tipo sindical entre governo e municípios . Ao invés era importante saber o que hoje faz o governo que não possa ser feito com níveis de eficiência e eficácia superiores por parte governo local e se este não deveria caminhar no sentido de aumentar as suas condições de governabilidade (executivos mais pequenos, maioritários da força política vencedora, limitação de mandatos e autarcas devidamente remunerados face às responsabilidades que assumem e onde faria sentido um adequado regime de incompatibilidades). Discutir a lei das finanças locais, que a ser verdade que não diminui as transferências para os municípios alterando apenas as regras de distribuição de modo a corrigir assimetrias ( e que deveria ser saudado pelos municípios numa óptica de solidariedade municipal) é importante mas é pouco. O resto fica por fazer e é muito.

publicado por José Manuel Constantino às 12:30

04
Out 06

Na passada sexta-feira encontrei um amigo que já não via há algum tempo e que soube andar nos meandros da política desde as últimas eleições autárquicas.

A dada altura perguntei-lhe:

 

 - Então, como vai esse teu trabalho autárquico?

 

 - AH! Estou muito desiludido com a política.

 

 - Por quê?

 

 - É pá, já estou lá há um ano e ainda ninguém me tentou subornar!!

 

E assim vão as expectativas de quem entra para a politica…

publicado por carla cristina rocha às 17:16

Num relatório recentemente enviado pelo governo português para Bruxelas  garante-se  um valor do défice público de acordo com o previsto. Não obstante, o governo reconhece que ao nível da despesa primária a administração central gastou mais 144 milhões que o previsto. O equilíbrio das contas é obtido através de cortes no investimento (menos 647 milhões!) e a um excedente na segurança social. As despesas continuam a crescer mais que as receitas e apesar dos sucessivos  anúncios de emagrecimento da estrutura de custos de funcionamento da administração pública central eles tardam a produzir efeitos. De resto, basta conhecer as despesas de alguns organismos da administração central em matérias não essenciais (composição das delegações ao estrangeiro, regime de ajudas de custo ,transportes, alojamento, serviços de viaturas) ou os valores a que estão a ser celebrados contratos em regime de recibo verde para se perceber o sentido da austeridade imposto à administração pública. Nada disto é muito diferente do que com outros governos ocorreu no passado. Só que era suposto vivermos num novo contexto político. Mas não. Em alguns sectores da administração pública vive-se uma espécie de divergência estratégica entre aquilo que o primeiro-ministro anuncia e aquilo que alguns dos seus praticam.

 

publicado por José Manuel Constantino às 16:00

03
Out 06

Nas eleições presidenciais no Brasil o actual presidente e de novo candidato Lula da Silva teve mais votos em 2006 que os que havia recolhido em 2002.Número que, contudo, não foi suficiente para ganhar as eleições à primeira volta. Lendo a imprensa portuguesa  a explicação encontrada para ter ganho a primeira volta das eleições, mas sem margem suficiente para não ter necessidade de uma segunda volta tem a ver com a reacção do eleitorado aos casos que envolveram o seu partido e a sua governação, política e eticamente reprováveis. Fica por explicar como Lula apesar desses factos acabou por ganhar a eleição e o eleitorado censor dessas práticas elegeu Collor de Melo e Paulo Maluf condenados por corrupção e parte significativa dos envolvidos no mensalão e na “máfia das sanguessugas”.Reduzir a motivação do eleitorado a critérios morais dá este resultado: o que se aplica a uns, deixa de poder ser aplicado a outros. E reduzir a política a uma espécie de moral em exercício deixa sem explicação porque uns ganham e outros perdem.

publicado por José Manuel Constantino às 16:24

02
Out 06

Não é fácil conviver com a situação de ex-Presidente da República. Não estando diminuído ou limitado nos seus direitos cívicos manda a prudência e o bom senso que a sua actividade política evite matérias ou temas aos quais, enquanto Presidente, esteve ligado. O que havia para fazer ou dizer foi  dito ou feito enquanto Presidente. Se não apreciou esta ou aquela atitude teve tempo e oportunidade para o censurar. Jorge Sampaio prefere um outro caminho. Deixa censuras ao ex-Procurador Geral da República o que por toda a razão que lhe assista não assenta bem e é deselegante atendendo a que até final do seu mandato mereceu-lhe a respectiva confiança política. O que é estranho, porque por princípio, não se critica publicamente quem nos é merecedor de confiança. E em jeito de ameaça avisa que “talvez um dia escreva o que foram estes últimos dez anos, em matéria de justiça”. Será que aos portugueses não foi revelado algo tão importante sobre a justiça que mereça, tempos depois, a sua divulgação pública?

publicado por José Manuel Constantino às 09:52

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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