Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

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Jun 12

Gosto de futebol, mas não gosto do modo como o pensamento dominante quer que se goste do futebol. Espero sempre que os jogadores joguem bom futebol e, se possível, que Portugal vença. Dispenso comentários, frases, ditos, reportagens especiais e outras pérolas com que amiúde nos brindam. Dos jogadores e de um sem número de especialistas que, nestes momentos, sempre surgem.

Gosto de futebol mas dispenso reportagens que, à escassez de matéria desportiva, envolve o que os jogadores comem, vestem, onde e como se equipam, onde dormem e outras banalidades.

Gosto de futebol mas dispenso reportagens sobre os penteados esquisitos, as roupas extravagantes, as tatuagens aberrantes e os brincos.

Gosto de futebol mas mudo logo de canal perante entrevistas infantis que, em ambiente pretensamente intimista, fazem perguntas patetas do tipo “o que o faz chorar”.

Gosto de futebol mas não ignoro o mecanismo de apropriação que marcas e patrocinadores pretendem fazer da banalização das emoções coletivas a propósito das participações nacionais.

Gosto de futebol mas não tenho paciência para ouvir o que comentadores e especialistas conseguem, no chamado lançamento do jogos, debitar durante horas seguidas sobre o que pode acontecer num jogo ainda por realizar.

Gosto de futebol mas detesto a menoridade com que um ministro nos trata a todos dirigindo-se aos jogadores da seleção e dizendo “vocês são Portugal”.

Gosto de futebol. Mas não gosto de doses maciças de informação sobre o futebol. E de debates em que o jogo da bola é tratado com ar grave e circunspecto como se tratasse de um assunto do Estado. Desejo que a selecção portuguesa vença mas não consigo partilhar o clima patrioteiro que, invariavelmente, por estas alturas, invade a nossa comunicação social. E temo o pior: que de manhã, à tarde e à noite o futebol seja o tema dominante. Como se o que estivesse em jogo fosse o nosso futuro coletivo ou a nossa felicidade individual.

Gosto de futebol, mas não gosto que o futebol, agora, como no tempo do Estado Novo, dê férias à política.

 

Publicado na edição de hoje do Primeiro de Janeiro

 

publicado por José Manuel Constantino às 10:03

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Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
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