Quando a gente pensa que sabe todas as respostas,vem a vida e muda as perguntas

13
Jul 12

Não é preciso ter experiência e conhecimento da docência e das regras universitárias para perceber que as equivalências que foram concedidas a Miguel Relvas são um embuste no plano científico e institucional, por muito meritório que se possa considerar o seu percurso profissional. Um percurso que, curiosamente, também permite a interrogação sobre que competências tinha para desempenhar muitos dos cargos, ainda que de modo fugaz, e que constam do seu currículo.

A atribuição da licenciatura em causa justificada com implicações e regulamentos inerentes ao Processo de Bolonha constitui uma ofensa à inteligência. Nada nesse processo justifica o que aconteceu. E o que aconteceu é da responsabilidade da universidade em causa que usou uma disposição legal de forma absolutamente leviana.

A impunidade deste tipo de decisões não é caso único. Abundam as entidades que numa lógica estritamente comercial anunciam pós – graduações em que se podem habilitar pessoas sem qualquer graduação ou equivalente. Toda esta lógica, por parte de instituições do ensino superior e universitário, de vender títulos de formação, constitui uma afronta e uma ofensa a todos os quadros formados em Universidades onde impera um clima de exigência, de trabalho e de rigor. E o modo como o caso presente já se inscreveu no anedotário nacional revela o entendimento com que a opinião pública o recebeu.

É certo que o caso tem relevo por se tratar de uma figura pública. E uma figura que tem sido objeto de permanente polémica. E porque a memória está fresca. Miguel Relvas pertence a um partido politico que fustigou a licenciatura de José Sócrates. Mas independentemente de um juízo individual sobre pessoas que se dispõem a obter graduações académicas em condições pouco normais e à revelia dos métodos tradicionais, o que fica deste episódio é que as instituições universitárias, ou alguns dos seus membros, podem tomar decisões que são um insulto ao mais elementar dos princípios: a credibilidade dos títulos que conferem.

Compreende-se o embaraço do atual ministro da educação em falar do caso de um seu colega de governo. E lá vai dizendo que é preciso mudar a lei. Percebe-se o que quer dizer com a necessidade de mudança. E o incómodo que a situação lhe causa. Apesar de tudo bem mais aceitável que as palavras do primeiro-ministro que considerou o caso um não assunto. Mas já se não compreende que não tenha, de imediato, mandado abrir um inquérito à Universidade Lusófona para que se esclareçam as condições em que foi atribuída a referida licenciatura.

Uma nota final: perante o que se conhece é estranho o silêncio das restantes instâncias universitárias, do Conselho dos Reitores, daquelas instituições que ainda prezam a qualificação académica por via da respetiva formação e não pela atribuição de créditos ao desbarato

 

Publicado na edição de hoje do Primeiro de Janeiro

publicado por José Manuel Constantino às 09:45

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.


Julho 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
14

15
16
17
18
20
21

22
25
26
28

29
30


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Autor: JOSÉ MANUEL CONSTANTINO
pesquisar
 
blogs SAPO